Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, divulgada em outubro de 2019, habitação, transporte e alimentação somam mais de 70% das despesas de consumo das famílias brasileiras. Só a moradia, com aluguel, contas e manutenção, fica com 36,6%. Com tanto já comprometido antes de qualquer escolha, um orçamento doméstico não precisa ser complicado. Precisa mostrar com clareza para onde vai o pouco que sobra.
Este guia mostra como montar um orçamento em quatro passos, explica a regra 50-30-20, uma das referências mais usadas para dividir a renda, e como adaptá-la à realidade de quem ganha menos.
Passo 1: descubra quanto entra de verdade
Use a renda líquida, o que cai na conta depois de descontos como INSS e imposto de renda. Se a renda varia, como acontece com autônomos e comissionados, use a média dos últimos seis meses ou, de forma mais conservadora, o valor do pior mês.
Rendas extras e incertas, como bicos, décimo terceiro e restituição do imposto, ficam fora da conta do mês. Elas entram como reforço para a reserva ou para quitar dívidas.
Passo 2: descubra para onde o dinheiro vai
Não estime. Pegue o extrato da conta e a fatura do cartão do último mês e anote cada gasto, agrupando em categorias simples: moradia, contas da casa, mercado, transporte, saúde, educação, dívidas, lazer, assinaturas e outros. Na maioria das vezes, o resultado surpreende, principalmente nas categorias de gastos pequenos e frequentes.
Passo 3: separe o essencial do resto
A regra 50-30-20, popularizada pela hoje senadora americana Elizabeth Warren e por sua filha, Amelia Warren Tyagi, no livro “All Your Worth”, de 2005, divide a renda líquida em três partes:
- 50% para necessidades: moradia, contas, mercado, transporte, saúde e parcelas de dívidas obrigatórias;
- 30% para desejos: lazer, restaurantes, viagens, compras não essenciais;
- 20% para o futuro: reserva de emergência, investimentos e quitação antecipada de dívidas.
A regra é uma referência, não uma lei. Pela própria POF, habitação e alimentação somam 54,1% das despesas de consumo das famílias brasileiras, em média, e o peso é maior nas famílias de renda mais baixa. Nesse caso, a divisão possível pode ser 70-20-10 ou até 80-15-5. O ponto central é manter uma fatia, ainda que pequena, para o futuro.
Passo 4: compare e ajuste
Veja um exemplo com uma renda líquida de R$ 3.800:
| Grupo | Pela regra 50-30-20 | Gasto real no mês | Diferença |
|---|---|---|---|
| Necessidades | R$ 1.900 | R$ 2.450 | R$ 550 acima |
| Desejos | R$ 1.140 | R$ 1.150 | R$ 10 acima |
| Futuro | R$ 760 | R$ 200 | R$ 560 abaixo |
Nesse caso, as necessidades estouram a referência. Duas saídas são possíveis. A primeira é aceitar uma divisão mais realista para agora, algo como 65-30-5. A segunda é cortar dos desejos para aumentar o que vai para o futuro: reduzir os desejos em R$ 300 elevaria a fatia do futuro para R$ 500, ou 13% da renda.
Repare que, no exemplo, o problema não está nos desejos, que ficaram quase na referência, e sim no peso das necessidades. Por isso, só cortar lazer resolve parte da conta. Mudanças grandes em necessidades, como um aluguel mais barato ou um plano de celular mais simples, levam tempo, mas costumam ter o maior efeito ao longo do ano.
Como manter o orçamento vivo
- Pague-se primeiro: programe a transferência da fatia do futuro para o dia em que o salário cair.
- Use contas ou “caixinhas” separadas no aplicativo do banco para cada objetivo.
- Revise uma vez por mês, no dia em que a fatura do cartão fechar. O guia sobre como controlar os gastos no cartão ajuda nessa revisão.
- Planilha ou aplicativo, tanto faz. Funciona o que você vai usar todo mês.
Por onde começar
Se o orçamento fecha no negativo, a prioridade é outra: organizar as dívidas antes de pensar em investir. O guia sobre como sair do vermelho mostra a ordem certa. Se fecha no azul, mesmo que por pouco, a fatia do futuro deve ir primeiro para a reserva de emergência.
Para hoje: abra o extrato do último mês, some os gastos em cada um dos três grupos e compare com a sua renda líquida. Esse único número, o percentual que sobra para o futuro, é o ponto de partida para todas as outras decisões.
Fontes e referências
- IBGE — Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018
- Banco Central — Cidadania Financeira
- Tesouro Direto
Dados checados em outubro de 2026. Taxas, tarifas e regras mudam com frequência; confira sempre os valores atuais diretamente com a instituição.

