Em agosto de 2026, quem deixou parte da fatura do cartão no crédito rotativo pagou, em média, juros de 444,9% ao ano. É uma das taxas mais altas entre as linhas de crédito para pessoa física acompanhadas pelo Banco Central, que divulgou o dado no fim de setembro. Para comparar: o parcelamento da própria fatura saiu, no mesmo mês, por cerca de 192% ao ano. Também é caro, mas custa menos da metade.
O rotativo não aparece como uma escolha na tela do aplicativo. Ele acontece quando você paga qualquer valor entre o mínimo e o total da fatura. A diferença vira empréstimo automaticamente. Este guia mostra quanto isso custa na prática, o que a lei mudou desde 2024 e as saídas que funcionam para quem já entrou nele.
Como o rotativo começa sem você perceber
A fatura traz dois valores principais: o total e o pagamento mínimo. Não existe mais um percentual mínimo obrigatório. Desde junho de 2018, cada banco define o seu no contrato e precisa avisar o cliente com 30 dias de antecedência antes de mudar. Pagar o mínimo, ou qualquer valor abaixo do total, é o que abre o rotativo.
Pelas regras do Conselho Monetário Nacional em vigor desde abril de 2017, o saldo só pode ficar no rotativo até o vencimento da fatura seguinte. Se você não quitar tudo nesse prazo, o banco é obrigado a oferecer um parcelamento com juros menores. Por isso o rotativo costuma durar um mês. O problema é que esse mês é caríssimo, e o parcelamento que vem depois também pesa.
Quanto custa, em reais
Imagine uma fatura de R$ 2.000. Você paga R$ 500 e deixa R$ 1.500 para depois. Com a taxa média de agosto, de 15,18% ao mês, a conta fica assim:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Saldo que ficou no rotativo | R$ 1.500,00 |
| Juros de um mês no rotativo (15,18%) | R$ 227,70 |
| Saldo na fatura seguinte | R$ 1.727,70 |
| Parcela, se o banco parcelar em 12 vezes a cerca de 9,34% ao mês | cerca de R$ 245 |
| Total pago nas 12 parcelas | cerca de R$ 2.945 |
| Custo total dos R$ 1.500 que faltaram | cerca de R$ 1.445 |
Os valores são aproximados e não incluem o IOF, que também incide sobre o financiamento. Ainda assim, mostram a ordem de grandeza: os R$ 1.500 que você não pagou em um mês custaram quase o dobro ao longo de um ano.
Se o saldo continuasse rolando no rotativo, sem a obrigação de parcelar, a mesma dívida passaria de R$ 2.290 em três meses. É exatamente esse efeito bola de neve que as regras atuais tentam conter.
O teto de 100%: o que a lei garante desde 2024
A Lei 14.690, de outubro de 2023, a mesma do programa Desenrola, criou um limite para os juros do cartão. Regulamentado pela Resolução CMN 5.112, ele vale desde 3 de janeiro de 2024: juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar do valor original da dívida.
Na prática, uma dívida de R$ 1.500 pode chegar, no máximo, a R$ 3.000, somados principal, juros e encargos. No exemplo acima, o custo de cerca de R$ 1.445 fica perto desse limite, mas abaixo dele. O teto não torna o rotativo barato. Ele só impede que a dívida cresça indefinidamente, como acontecia antes.
A mesma resolução trouxe duas mudanças que valem desde julho de 2024: a fatura passou a ter de mostrar com mais clareza os juros e encargos cobrados, e o cliente ganhou o direito de levar a dívida do cartão para outro banco que ofereça condições melhores, a chamada portabilidade.
Se você já está no rotativo
A ordem das decisões importa mais do que qualquer dica isolada.
Primeiro, tente trocar a dívida cara por uma mais barata. Empréstimo pessoal, consignado (para quem tem acesso) ou o parcelamento da própria fatura custam bem menos que o rotativo. Compare sempre pelo Custo Efetivo Total (CET), que soma juros, tarifas e impostos e precisa aparecer em qualquer proposta de crédito. Comparar só a taxa de juros esconde parte do custo.
Se não houver crédito mais barato disponível, peça a portabilidade. Outro banco pode quitar a dívida do cartão e cobrar menos por ela. O pedido é feito na instituição que vai receber a dívida.
O parcelamento oferecido pelo próprio cartão deve ser o último recurso. Ele é obrigatório depois do rotativo, mas, a cerca de 192% ao ano, continua sendo uma das linhas mais caras do mercado.
Enquanto estiver pagando, deixe o cartão de lado. É aí que muita renegociação desanda: a fatura nova se soma à parcela da antiga, e o ciclo recomeça. Se precisar, reduza o limite pelo aplicativo.
Para quem tem várias dívidas e renda apertada, vale conhecer a Lei do Superendividamento, que permite renegociar com todos os credores de uma vez, pelo Procon ou pela Justiça, preservando um valor mínimo para as despesas básicas.
Como não entrar de novo
Os dados explicam por que o rotativo é tão caro: em agosto de 2026, segundo o Banco Central, mais de 66% do saldo nessa modalidade estava atrasado havia mais de 90 dias. O banco cobra caro porque muita gente não paga. Quem paga em dia acaba arcando com a inadimplência dos outros.
Alguns hábitos evitam a maior parte dos casos:
- Coloque o vencimento da fatura logo depois do dia em que você recebe o salário. A maioria dos bancos permite trocar a data pelo aplicativo.
- Acompanhe a fatura aberta durante o mês, não só quando ela fecha. Os aplicativos mostram o valor parcial em tempo real.
- Considere o limite do cartão como dinheiro que você já gastou, não como dinheiro disponível. Se a fatura do mês não cabe no salário do mês, o problema começou antes do vencimento.
Se ao fechar a fatura você já sabe que não vai conseguir pagar o total, não espere o vencimento. Ligue para o banco ou simule o parcelamento no aplicativo antes, e compare o CET com o de um empréstimo pessoal. Em agosto, a diferença entre deixar a dívida no rotativo (444,9% ao ano) e parcelá-la (cerca de 192%) já passava de 250 pontos percentuais, e um empréstimo pessoal costuma sair ainda mais barato que o parcelamento.
Fontes e referências
- Banco Central do Brasil — Estatísticas de taxas de juros
- Lei 14.690/2023 (teto de juros do cartão)
- Banco Central — Cidadania Financeira
- Lei 14.181/2021 (superendividamento)
Dados checados em outubro de 2026. Taxas, tarifas e regras mudam com frequência; confira sempre os valores atuais diretamente com a instituição.

