A gigante do agronegócio, Corteva, está estudando uma mudança radical: a possível separação de suas divisões de sementes e defensivos. Essa notícia, que ecoa nos corredores do mercado financeiro e do agronegócio, sinaliza uma reestruturação estratégica que pode moldar o futuro da empresa e, por extensão, de todo o setor. Mas, afinal, por que essa divisão está sendo considerada e o que ela pode acarretar?
Desde sua criação em 2019, a partir da fusão da Dow e da DuPont, a Corteva se estabeleceu como um dos principais players globais, oferecendo um portfólio integrado de produtos e serviços. No entanto, o tempo e a evolução do mercado trouxeram novos desafios e oportunidades, levando a empresa a repensar seu modelo de negócio. Esta potencial divisão, portanto, não é uma decisão tomada de forma leviana, mas sim o resultado de uma análise profunda sobre como maximizar o valor para os acionistas e impulsionar o crescimento em cada segmento.
O Racionale por Trás da Divisão

A decisão de separar as operações, por mais surpreendente que possa parecer, é, na verdade, uma tendência observada em outras grandes corporações. O objetivo principal é liberar o potencial de cada negócio, permitindo que eles operem com mais foco e agilidade. No caso da Corteva, as divisões de sementes e defensivos, embora complementares, possuem dinâmicas de mercado, ciclos de inovação e perfis de risco distintos.
A divisão de sementes, por exemplo, tem um ciclo de inovação mais longo e intensivo em pesquisa e desenvolvimento. Envolve genética, biotecnologia e uma forte dependência de aprovações regulatórias. Por outro lado, a divisão de defensivos agrícolas, que inclui herbicidas, inseticidas e fungicidas, é mais reativa às necessidades imediatas dos agricultores e aos desafios de pragas e doenças, com um ciclo de vida de produto e de patente diferentes. Portanto, ao separar as duas, a Corteva permitiria que cada negócio investisse e se desenvolvesse de acordo com suas próprias necessidades e oportunidades.
Além disso, a separação pode atrair diferentes tipos de investidores. O negócio de sementes, com seu crescimento mais previsível e sua inovação baseada em biotecnologia, pode ser atraente para investidores focados em tecnologia e crescimento de longo prazo. Enquanto isso, o negócio de defensivos, com sua resiliência e geração de caixa, pode interessar a investidores que buscam estabilidade e dividendos. Consequentemente, a soma das partes pode valer mais do que o todo, um princípio financeiro conhecido como “soma das partes”.
Os desafios e oportunidades da Divisão de Sementes

Se a separação realmente ocorrer, a nova empresa de sementes da Corteva enfrentaria, primeiramente, o desafio de manter seu lugar de destaque no mercado. Atualmente, ela opera em um setor altamente competitivo, dominado por gigantes como Bayer (com a Monsanto) e Syngenta. Para se manter relevante, a empresa de sementes precisaria intensificar seus investimentos em P&D, com o objetivo de lançar novas variedades de culturas com características aprimoradas, como maior resistência a pragas, doenças e estresses climáticos. Além disso, a empresa precisaria fortalecer sua rede de distribuição e seu relacionamento com os agricultores.
Porém, a oportunidade é imensa. Uma empresa focada em sementes poderia se posicionar como líder em soluções de biotecnologia e melhoramento genético. Poderia explorar novas parcerias e aquisições que, anteriormente, poderiam ser complexas devido à sobreposição com o negócio de defensivos. Assim, a empresa se tornaria um player mais ágil, capaz de responder mais rapidamente às demandas do mercado.
O Brasil, como um dos maiores mercados agrícolas do mundo, seria um foco central para a nova empresa de sementes. Por exemplo, a demanda por sementes de alta tecnologia para soja, milho e algodão continua a crescer, impulsionada pela necessidade de aumento de produtividade e sustentabilidade. Uma empresa de sementes independente poderia, portanto, concentrar todos os seus esforços em atender a este mercado de forma mais eficiente e customizada.
O Cenário para a Divisão de Defensivos

O negócio de defensivos, por sua vez, também enfrentaria seu próprio conjunto de desafios e oportunidades. Primeiramente, a empresa de defensivos precisaria navegar em um cenário regulatório cada vez mais rigoroso, especialmente na Europa, onde a pressão por produtos mais sustentáveis é crescente. Além disso, a competição no mercado de defensivos genéricos é intensa, o que pode pressionar as margens de lucro.
No entanto, a separação criaria uma empresa de defensivos com um foco mais nítido na inovação em proteção de cultivos. Poderia acelerar o desenvolvimento de novos produtos, incluindo defensivos biológicos e soluções digitais para o manejo integrado de pragas. Desse modo, a empresa poderia se destacar como líder em soluções de proteção de cultivos sustentáveis.
Enquanto isso, no Brasil, a empresa de defensivos teria a oportunidade de consolidar sua liderança em um mercado em constante expansão. A agricultura tropical, com sua alta incidência de pragas e doenças, exige um portfólio robusto de produtos. A nova empresa poderia, com isso, focar em soluções específicas para as condições brasileiras, aprimorando seu relacionamento com os agricultores e distribuidores locais.
A Perspectiva do Acionista e do Mercado

Do ponto de vista financeiro, a potencial divisão da Corteva é vista como uma forma de desbloquear valor para os acionistas. O mercado de capitais muitas vezes atribui múltiplos de avaliação diferentes para empresas de sementes e de defensivos. Ao separar os negócios, a Corteva permitiria que cada um fosse avaliado com base em seus próprios méritos, o que poderia, consequentemente, levar a um aumento no valor total de mercado das duas empresas combinadas.
Além disso, a separação poderia facilitar a gestão e a alocação de capital. Cada empresa teria seu próprio balanço e sua própria equipe de gestão, permitindo maior flexibilidade na tomada de decisões sobre investimentos, fusões e aquisições. Em outras palavras, a nova estrutura poderia impulsionar o crescimento de forma mais eficiente.
No entanto, há riscos. A separação é um processo complexo e custoso, com potenciais desafios operacionais e logísticos. Ademais, a sinergia entre as duas divisões, que atualmente é uma vantagem competitiva da Corteva, poderia ser perdida. A empresa precisaria, portanto, garantir que a transição seja suave e que os laços comerciais e de pesquisa entre as duas novas entidades sejam mantidos, para que a separação não prejudique a experiência do cliente.
Uma Nova Era para a Corteva e o Agronegócio
A decisão de avaliar a divisão de suas operações de sementes e defensivos é, sem dúvida, um dos movimentos mais significativos da Corteva desde sua formação. Não se trata apenas de uma reestruturação interna, mas de uma resposta estratégica aos desafios e oportunidades de um mercado em constante transformação. Se a divisão se concretizar, ela criará duas novas empresas, cada uma com um foco mais aguçado, maior agilidade e potencial para crescimento.
O agronegócio, por conseguinte, testemunharia a ascensão de dois novos players, cada um com uma proposta de valor clara e um posicionamento estratégico bem definido. Para os agricultores, a mudança pode significar mais inovação e produtos mais especializados, adaptados às suas necessidades. Para os investidores, a oportunidade de alocar capital em dois negócios com perfis de risco e crescimento distintos.
A Corteva, ao considerar esta separação, demonstra sua capacidade de se adaptar e evoluir. A decisão final, que ainda está em avaliação, será, com certeza, um divisor de águas na história da empresa e no futuro do agronegócio global.





